Ela Nobres e Vila Rica. Eu Raimundo, Aripuanã. Mato Grosso.

Depois de mais de 25 dias nas estradas do Centro-Oeste e Norte do Brasil fui obrigado a voltar para casa. São Paulo é infernal.

Queria mesmo era viver na estrada, comer poeira e cuspir barro. Acordar em um canto, almoçar em outro. Jantar ainda mais longe. Rodar de caminhão puxando soja, milho, boi. O que for. Cozinhar na beira do caminhão. Seja lá o que for. No Norte comer carne de vaca, no Sul chimarão.  Em Minas queijo, no Nordeste rapadura e bode. Só não poluição na capital.

Falei com Maria sobre cair na estrada para sempre ao seu lado. Ela ficou brava. Eu prometi a boa internet na boléia. Ela negou. Fechou a cara. Eu sorri e desconversei.

Eu Sorriso, ela Mudança. Ela Nobres e Vila Rica. Eu Raimundo, Aripuanã. Nos juntos, Nova Vida, Salto da Alegria, Itanhangá. Feliz Natal. Luciana, Vera, Claudia, Lucialva. Estrela, Santana. Água Fria. Pássaros, Pixaim, Água Limpa. Mato Grosso.

Alguns dias depois um email. “Que tal voltar à estrada para fazer o roteiro Rio Verde-GO a Cuiabá-MT, visitando fazendas de soja?”.

Não pensei duas vezes.

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Quem iria até a lua para ver a Transamazônica

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Miritituba é um distrito de Itaituba, no Pará. Ele fica do lado de cá do rio Tapajós. Em uma passagem de olho é possível ver algumas casas, hotéis pobres, um pequeno porto de passageiros e balsas. Na entrada, alguns postos de gasolina cheios de caminhões. Desse lado de cá do rio estão sendo construídos três grandes portos fluviais de carga. Todos privados. Eles trabalharão no futuro com mais de 1500 toneladas de soja por dia. O movimento de caminhão aumentará consideravelmente na região, no entanto, ninguém tem esperança de que as estradas, federais, sejam refeitas no mesmo ritmo.

Do outro lado tem Itaituba, ela se parece mais com uma cidade. Comércio na beira do rio, bares que em finais de semana servem picanhas e cervejas geladas ao som de brega. Taxis, garotas caminhando com suas pequenas saias e vários jeeps 4×4 sujos de barro ostentando o espírito aventureiro da região. Estamos a pouco menos de 200 km da Transamazônica.

Produto do regime militar, a BR-230, é mais conhecida por Transamazônica. Há quem diga por ali que o plano era ela poder ser vista da lua. Me pergunto quem iria até a lua para ver a Transamazônica. Perto do genocidio que foi cometido durante sua construção, na década de 1970, ve-la da lua é o de menos. Por falta de registros não é possivel falar números exatos de mortos. Baseados em relatos, mais de 8 mil índios foram assassinados em pelo menos quatro frentes de construção da estrada. Militares, garimpeiros e madeireiros ilegais estão envolvidos. A Comissão Nacional da Verdade está investigando o caso, mas nada se fala sobre.

Linda como qualquer outra na região, em matéria de buraco e descuido, não é muito diferente do que já tínhamos visto. Com seus mais de 4.200 quilômetros, boa parte de terra, ela é a terceira maior estrada do país. Saindo de Cabedelo na Paraíba, atravessa Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e termina no Amazonas, na cidade de Lábrea.

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Só de ouvir falar em ‘Transamazônica’ impossível não se arrepiar. Ainda mais os viajantes. Aqueles que gostam de terra, lama e poeira. Já os caminhoneiros, esses querem asfalto!

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24.04.2015 - RODOVIA TRANSAMAZONICA, PA - Imagens do caminhao da equipe Caminhos da Safra na rodovia Transamazonica entre o trecho da cidade de Itaituba e Ruropolis, Para. Foto: Emiliano Capozoli

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24.04.2015 - RODOVIA TRANSAMAZONICA, PA - Imagens da rodovia Transamazonica entre o trecho da cidade de Itaituba e Ruropolis, Para. Foto: Emiliano Capozoli

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24.04.2015 - RODOVIA TRANSAMAZONICA, PA - Imagens da rodovia Transamazonica entre o trecho da cidade de Itaituba e Ruropolis, Para. Foto: Emiliano Capozoli

Passei horas procurando uma placa que estivesse escrito ‘Transamazônica’. Pouco me interessava se fosse pequena, grande, suja ou velha. Queria uma foto minha ao lado de uma delas. Passamos por uma e um quilômetro a diante paramos em um posto de gasolina. Descolei uma carona com um motoqueiro que me levou até o pé dela, me esperou fazer uma foto e me trouxe de volta. Gente fina.

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Na beira da estrada, no município de Rurópolis, Pará, tem o ‘Restaurante da Dona Elena’. Assim como a maioria dos lugares que comi nos últimos 23 dias, ela servia arroz, feijão, salada, macarrão, bisteca e rabada (por sinal muito boa, matou minha saudade de Minas Gerais). Limpei meu prato.

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Além de Dona Elena, Lucideia da Conceição Souza, a Cleia, cortava cebola dentro da cozinha. Vinda de Juriti, no Pará, ela tinha chego há apenas 4 meses. “Separei do meu marido e vim pra cá. Tenho família desses lados”, explicou ela meio tímida.

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Quando fui ai banheiro notei que não tinha água. Perguntei se a torneira estava quebrada. “Não moço. Não tem água mesmo”. No caminho passei pela cozinha e notei que estava faltando luz no restaurante. Fiquei curioso para saber se elas que economizavam ou se não tinha mesmo energia elétrica. A resposta foi ainda mais curiosa: “falta sempre que o urubu senta no fio. Hoje estamos sem luz nem água. Ontem faltou luz também”. Fechado com vidros, Dona Elena refrigera o ambiente, quando pode, com potentes aparelhos de ar condicionado.

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Meio desconfiada Dona Elena não é de muita conversa. De sobrancelha feita a lápis, tem sempre a resposta curta e na ponta da língua.

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Quando pergunto a respeito do sobrenome de Dona Elena a resposta é rápida. “Não quero que me prendam”. Sorri mostrando os detalhes em ouro que tem na boca.

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No corredor descobri um dos maiores problemas da região amazônica.

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“Sorte que o vento sopra daqui para lá”

Hoje é sábado. Só descobri porque perguntei para alguém. Trabalhando vários dias seguidos, acabei perdendo a noção dos dias da semana. Cai cedo da cama, como fiz em poucos sábados da minha vida. Saindo do “Bar sorveteria e dormitório do Toninho padaria” conversei com os cachorros até que o resto da equipe aparecesse para tomarmos café da manhã: um copo grande de café preto e três fatias de pão caseiro com margarina na chapa.

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Rodaríamos hoje por volta de 200km até Miritituba as margens do Rio Tapajós. Se desse tudo certo atravessaríamos de balsa o rio, mas teríamos que conferir primeiro o preço da travessia para o caminhão. Caso fosse muito caro, iriamos de voadeira mesmo. Bom, já adianto que foi o que aconteceu. Custava pouco mais de R$ 150 só uma viagem e não havia necessidade do Scania ir conosco.

Ao lado do “Bar sorveteria e dormitório do Toninho padaria” tinha um restaurante que também servia café da manhã. Ali conversamos com os donos do pequeno comércio à beira da estrada de terra, a BR163. “Aqui tem muito pó. Quando não chove quase não aguentamos. Sorte que o vento sopra daqui para lá, então vai mais poeira para o outro lado da estrada”, explica  Deusdete Trajano da Silva ao lado de sua esposa Elisamar Pereira Silva. Ele é cearense, ela paranaense. Assim como muitos ali na região ambos vieram de outras partes do país em busca de emprego e vida nova no Pará. Se conheceram em Itaituba onde ele vendia hortifrutigranjeiros para garimpeiros. Ela era enfermeira.

Na noite anterior comentamos que hoje faríamos um retrato deles entre as mesas do restaurante. Elisamar, ao nos ver tomando café logo cedo, já nos mostrou que naquele dia ela tinha saído de casa produzida. Camiseta regata com um desenho de Nova Iorque, batom nos lábios e cabelo penteado. Nas mãos algumas fotos que fez questão de nos explicar uma por uma. Eram imagens da época que eles mudaram para lá e construíram as primeiras casas de madeira. “Papai cortava as árvores aqui perto e fazia tudo”, relembra ela.

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Estradas, sinalizações improvisadas e muita terra marcaram, mais uma vez nosso dia de viagem. Uma das coisas interessantes da região amazônica é o tempo. Em menos de 20 quilômetros de estrada é possível ver céu azul, logo em seguida um tempo nublado e a adiante uma forte chuva tropical. Em poucos minutos sol mais uma vez. Nas estradas da região, sejam elas pequenas ou grandes, a impressão é de que estamos fazendo uma trilha onde o veículo ideal seria um 4×4 e não um caminhão bi-trem.

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Por mais que a paisagem seja linda, ainda tem gente que passa mal viajando. Pior do que passar mal é ter um amigo motorista que não para compreende a situação e continua tocando estrada a fora.

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Pouco mais a frente paramos em um posto de gasolina.

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Estávamos ouvindo há dois dias que em algum momento da estrada encontraríamos uma carreta tombada. Mais uma. Segundo relatos o caminhoneiro estava lá há 3 ou 4 dias esperando a seguradora vir para fazer as fotos do acidente e então poder liberar a carreta. Era uma carga de soja que, assim como nós, tinha o porto de Miritituba como destino final. Ouvimos também falar que ele estava no meio do nada e, que por ser de uma transportadora, seus colegas estavam levando mantimento para a sua ‘sobrevivência”. Ele pedia por rádio.

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Nada disso estava acontecendo. Quando passamos por lá tinha somente dois senhores estavam catando um pouco de soja para usar de isca na pesca.

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Ao final, não resistimos. O repórter Raphael Salomão e eu pedimos ao nosso motorista para fazer um retrato nosso ali.

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Algumas horas depois chegaríamos em Itaituba, já do outro lado do Rio Tapajós.

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15º dia: Verde amazônico e o marrom da estrada de chão

– Bom dia. Os senhores retiram para-choque de caminhão?

– Sim, claro. Qual caminhão?

– Um Scania R620.

– Ah, sei. Vocês são os repórteres da Globo Rural, não? Vocês estão indo para Santarém né?

– Sim, sorri desentendido. Como o senhor sabe?

– Um ai puxando bebida me avisou que vocês estavam subindo.

A informação sobre nossa presença chegava antes mesmo de nós. Nosso ritmo de estrada era outro, não estávamos carregados e nem tínhamos a pressa de um carreteiro. “Nossa estrada não é ligeira, ninguém tem pressa de chegar”, canta Almir Sater.

Dentro da minha ignorância sobre automóveis e caminhões, notei que estávamos viajando em uma Ferrari vestida em caminhão. Eu até pesquisei um pouco sobre nosso truck antes de pegar estrada, mas não imaginei que ele era assim. Todos os lugares que parávamos aparecia um curioso para tirar uma foto, fazer uma pergunta ou simplesmente pedir para conhecer a boleia. A parada no posto foi assim. O motorista gostava, todos vinham falar com ele. Eu sentia que seu ego ia explodir uma hora. Até quando estávamos saindo do posto de gasolina ele reduziu e perguntou para uma mãe com bebe no colo se ela não queria fazer uma “última foto”.

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Saímos do posto, travessamos a BR e paramos em uma mecânica. Retiramos a proteção da frente do caminhão. Ela era muito baixa e não suportaria as estradas de chão batido. Seria destruída.

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Tadeu Roberto, responsável pela direção, falou um pouco sobre o processo.

Em todos os lugares que passávamos nos diziam que dali para frente as coisas só iam piorar. Estrada mais esburacada, menos asfalto, possibilidade de lama e até ficar atolado. Para ilustrar o que diziam, até nos mostraram um quadro cheio de fotografias que tinham tirado no começo dos anos 2000.

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Protetor do para-choques retirado, fotos, vídeos e entrevistas feitos, hora de partir. Tínhamos como meta no dia de hoje chegar ainda no município de Trairão, 240 km dali.

A BR163 tem seus problemas mas ela é linda, especialmente o trecho que não tem asfalto. Seria uma injustiça da minha parte não falar da sua beleza. Como se rasgasse o manto verde amazônico, o marrom da estrada de chão iluminado pelo sol de início de outono é de deixar qualquer um boquiaberto.

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Lagoas, brejos, matas alagadas apareciam sempre na beira da estrada. A variedade de tons de verde é maluca. Estamos na Amazônia.

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No período da manhã rodamos até Moraes de Almeida, onde paramos para almoçar. A cidade fica em uma baixada. Quando chegamos do alto da estrada vi lá embaixo uma carreta virada. Normal. Comemos e em seguida resolvi dar uma volta pelas bandas do restaurante. Por coincidência encontrei o gerente de uma das transportadoras que passamos ontem. Tínhamos o entrevistado. Ele parou sua pick-up inicialmente branca, mas já quase toda marrom, e me ofereceu uma carona. Topei.

No carro ele me conta que aquele caminhão era da empresa dele, mas ele não costuma ir até o local do acidente. “Tive que vir aqui dessa vez porque esse motorista estava bêbado”. Perguntei então o que acontece com o motorista nesse caso, se ele é demitido, por exemplo. Ele desconversou. Resolvi não prolongar o assunto.

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Pouco mais adiante cruzamos alguns grupos de animais caminhando tranquilamente na beira da estrada.

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Algumas horas mais de estrada e chegaríamos em Trairão.

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Chegaríamos na cidade de Trairão se a estrada nos deixasse. Paramos para jantar na Vila Jamanxim, dentro do Parque Nacional. Resolvemos ficar por ali mesmo. Os companheiros de estrada diziam que para baixo, a estrada estava muito ruim e que se saíssemos agora, iríamos ter que dormir dentro do caminhão. Os três.

Nos hospedamos em uma sorveteria que, nos fundos, também acomodava pessoas em uma casa de madeira com 8 quartos e um banheiro coletivo. A pernoite nos custou uns R$ 50,00 para cada. A única opção. Cada quarto oferecia além da cama um rolo de papel higiênico, um ventilador e uma toalha.

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Mais tarde um pouco resolvi sair para ver o movimento. Na frente da sorveteria/hotel tinham alguns caminhões parados com suas cozinhas acesas. Em uma delas estava Amarildo Alves de Assis, o Sansão cozinhando um feijão ao mesmo tempo que dedilhava uma viola de 12 cordas. Dali só saia ‘modão’ de viajante. Sentado em um banquinho na beira da BR163 ele ficavam pequeno ao lado da sua carreta 9 eixos carregada com 50,8 TON de soja. Seu destino era o mesmo da nossa equipe e da grande maiorias dos carreteiros que subiam a BR: Porto de Miritituba.

No vídeo ele toca ‘Pagode em Brasília’ de Tião Carreiro e Pardinho.

14º dia: BR163, uma rodovia longitudinal

Nossa próxima parada seria dali a 154km, segundo o Google. Em 2h09 estaríamos em Novo Progresso, sempre pela BR163 sentido Santarém. Pena que o ‘sabe tudo’ da internet sabe pouco sobre estradas federais. Inocente. A ligação entre nossa partida e nosso destino tinha uma variedade inumerável de buracos, para todos os gostos: pequenos, grandes, gordos, magros, fundos, rasos. Na direita, na esquerda, no meio. Com fundo de terra, cheio d’água, com lama, seco. Falo do asfalto. A parte de terra tem erosões fundas, rasas, perigosas, inofensivas. Barrancos caídos, cascalho solto e, em alguns momentos, materiais de construção de concessionárias que deveriam fazer a pavimentação da estrada, mas largaram mão. Essa é a BR163, uma das principais rotas de escoamento de soja do Brasil.

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A BR-163 é uma rodovia longitudinal, ou seja, ela corta o país do sentido norte-sul. Ao lado da BR174, elas são uma exceção, têm seus quilômetros contados a partir do sul e não do norte, como todas as outras rodovias nacionais. Iniciando em Tenente Portela no Rio Grande do Sul ela termina em Santarém, no Pará, com total de 3467 km de extensão, sendo quase 1000 km não asfaltados.

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Além de buracos, outra coisa nos fazia rir. Até de uma maneira irônica. Placas que nos informavam da má qualidade da estrada e pedia para reduzirmos a velocidade. “Pista escorregadia” ou “Cuidado com buracos”. Era mesmo necessário esse tipo de informação óbvia?

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Viajo muito pela rodovia Fernão Dias, BR381, que liga São Paulo a Belo Horizonte, MG. Me lembro muito bem de uma coisa que me assustava, ainda pequeno: quando estrada ainda não era duplicada haviam muitas cruzes na beira do asfalto. Cruzes de madeira, coloridas e as vezes até uma pequena igrejinha. Nunca imaginei que elas eram homenagens às pessoas mortas ali. Detalhe um pouco assustador, mas enfim, era a realidade de uma estrada federal que morria gente toda a semana. Já eu, adorava ver caminhões tombados.

Quando me deparei com essa pequena capela na beira do chão batido voltei pelo menos uma década nas minhas recordações e saquei na hora. Ali, naquela curva fechada, que terminava de cara para um barranco, morreu alguém. Aliás, ela se parecia mais um pequeno túmulo do que qualquer outra coisa. Notei que a capela era toda feita de piso branco e que dentro dela, fechada com um pequeno cadeado dourado, tinha um santo. Me chamou a atenção como ela estava limpa naquela poeira toda. O repórter não entendeu o que fazia uma ‘mini igreja’ onde quase ninguém parava e eu expliquei o motivo. A boleia do nosso caminhão ficou em silêncio. Motorista e repórter fizeram o sinal da cruz e bola para frente.

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De volta ao asfalto.

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Pouco tempo depois chegamos em Novo Progresso. De progresso, pelo menos da entrada da cidade, não tem nada.

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Ainda de tarde fomos entrevistar alguns gerentes de transportadoras da região, conhecemos os pontos de apoio das empresas e fizemos alguns vídeos.

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Mais a noite saímos para jantar. Na volta pegamos um táxi e perguntei ao motorista sobre a noitada da cidade, que me parecia animada naquela hora. Ele me disse que o melhor lugar era o boteco Bate Papo, ‘logo ali, te faço a R$ 15,00 a corrida’. Agradeci, falei que no dia seguinte acordaria cedo e perguntei se ele iria. Enquanto esperávamos repórter e motorista sacarem dinheiro ele me mostrou no seu whatsapp suas amigas e como a noite naquela cidade era animada. Na lista só tinham mulheres. Loiras, morenas, gordas, magrelas, mostrando a língua na frente do espelho. Vi uma por uma. Perguntei: e o senhor, tem namorada? “Minha mulher me largou faz pouco tempo. Estava casado e engravidei uma outra”.

13º dia: das águas do Mato Grosso à Castelo dos Sonhos

Próximo destino: Castelo dos Sonhos. Isso mesmo, logo depois da divisa entre Mato Grosso e Pará, pela BR163, tem a Serra do Cachimbo e já entramos no município de Altamira. Castelo dos Sonhos é um distrito.

Antes de pegarmos estrada novamente tivemos que fazer uma parada obrigatória: Auto Posto Renascer, logo na saída da cidade. Eram 10 da manhã e um calor de deserto do Saara.

Saímos tarde de Sinop, mas conseguimos ainda passar por Guarantã do Norte, nossa última cidade no Mato Grosso, antes que os manifestantes fechassem a estrada. Segundo informações que pegamos nos postos, ali seria um dos pontos fortes dos bloqueios.

Como paulistano e morador de uma das cidades que mais sofre com a falta d’água acabo reparando em alguns detalhes que passam despercebidos para quem não sofre com esse problema. Impressionante a relação que temos com esse líquido precioso. Acredito que antes da seca todos nos pensávamos que a água era um bem infinito. Hoje não posso ver uma gota dela escorrendo que corro fechar a torneira. Acho que ate desenvolvi um ‘TOC’. Imagine eu viajando Mato Grosso à dentro e vendo em cada posto de gasolina os frentistas lavando caminhões gigantes inteiros. Ou mulheres empurrando folhinhas com a mangueira. Comentei com alguém sobre isso. Riram de mim e disseram: “aqui não falta água não paulista. Isso é o que mais tem por esses lados. Você vai ver ainda muitos rios na sua viagem”. Entendo, mas tenho pesadelos com isso.

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Caminhão de volta na estrada rumo ao Pará. Sempre que retomamos a viagem pela manhã tento colocar um música animada. Passei a noite ouvindo o disco de Renato Teixeira & Pena Branca e Xavantinho e acordei com uma canção na cabeça. Na verdade ela fala de várias cidades pelas BR364 e pela 163 que passei.

“Ji-Paraná, Rondônia/Guajará-Mirim, Cacoal/Ariquemes, Pimenta Bueno/Logo logo eu estarei em Porto Velho”

Em uma das paradas que fizemos para almoçar, ainda no Mato Grosso, ficamos mais de uma hora conversando com as pessoas que ali passavam. Alguns carreteiros subiam carregados e outros desciam a BR163, também conhecida por Cuiabá-Santarém, vazios. No Auto Posto Trevão, no município de Matupá, o movimento era grande. Sempre que um posto oferece uma grande área de estacionamento para caminhões o movimento de imensas carretas é grande. Gaúchos, maranhenses, paranaenses, baianos, curitibanos, gente do Brasil inteiro. Ali, naquele pedaço de chão, eles dividem as bombas de diesel e imensos pratos de comida. Aliás, uma das especialidades da casa era a ‘costela pizza’. Experimentei.

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Com um forte sotaque de gaúcho e um palito na beira da boca, Alexanio José Berté conta suas historias de viajante para nós paulistas curiosos. Dono de uma pequena transportadora, mostrava no celular fotos de um dos seus 4 Scanias tombado por causa das mas condições da BR163. No pátio do posto de gasolina, debaixo de um sol de pelo menos 30 graus ele conta que a estrada está “longe de chegar a 100%, mas dá para trabalhar”.

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Ali conheci também Nicodemos Rodrigues, um maranhense que foi garimpeiro e hoje trabalha no Trevão. Senhor de fala calma e baixa, me contou porque trabalhava no posto.

Barriga cheia, café tomado e dentes escovados, é hora de retomar a jornada. Uma cena nos chama a atenção e nos indica que estamos chegando no Pará. Diferente do Mato Grosso que produz basicamente grãos, o estado paraense tem uma cultura rural um pouco diferente. Quem ‘manda’ na região são os boiadeiros e madeireiros. As plantações de milho e soja começam a ficar para trás.

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Matupá foi criada em 4 de julho de 1988 e tem pouco mais de 15 mil habitantes. A origem do seu nome, como é de se imaginar, é indígena, Tupi. O termo significa ‘porção de terra com vegetação, que se desprende das barrancas dos rios da bacia do Amazonas’. Ela é a nossa última cidade mato-grossense antes de ingressarmos em terras paraenses.

A divisa de estados é bem clara e não deixa ninguém esquecer dela. Feita de madeira da região, rodeada por mata atlântica, fomos brindados com um belo céu azul. Logo abaixo dela, um rio de águas cristalinas me faz lembrar das cachoeiras de Minas Gerais. Por ali passa boa parte do escoamento de grão da região norte do Mato Grosso, por sinal, uma fortuna. Para se ter uma ideia, um caminhão com 30 TON de soja, carrega uma carga avaliada em mais de R$ 28.000

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Fim de tarde chegando e a hora de parar se aproxima. Nosso plano é pernoitar em Castelo dos Sonhos, distrito de Altamira, e seguir viagem na manhã seguinte. Hoje não ‘fizemos’ muitos quilômetros, porém ouvimos boas historias.

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Logo na estrada do pequeno vilarejo achamos um lugar para estacionar o caminhão. Em frente ao ‘Supermercado Castelo – Orgulho de ser castelense’ e próximo da pousada onde ‘pousaríamos’. Na porta do mercado um paraense simpático que vestia uma camiseta que combinava com a pintura da parede guardou o caminhão a noite toda.

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Dormimos no castelo dos sonhos.

12º dia: Sinop, a capital do Nortão

Desde o início da primeira etapa do Caminhos da Safra estive com um mapa rodoviário nas mãos. Nosso motorista, Tadeu Roberto, conhece bem a estrada e sabe por onde passamos, o que não é meu caso. Sou viciado em mapas. Não interessa se estou em uma pequena cidade ou vou atravessar 3 estados de caminhão, preciso ter um companheiro de papel em mãos. Gosto de ver o nome das cidades, as estradas de chão batido.

Imagine se eu iria saber que ‘Ji-Paraná’ fica em Rondônia ou que ‘Porto do Acre’ faz fronteira do estado com a Bolívia. Você sabia que logo depois de passar pela Serra do Cachimbo, no começo do Pará na BR163, tem um distrito de Altamira que se chama ‘Castelo dos Sonhos’? E mais, lá é o distrito que tem a maior distância até sua sede? São 1200km. Para chegar até a cidade de Altamira é preciso subir a BR-163, Cuiabá-Santarém, até pouco depois de ‘Trairão’ e então pegar a Transamazônica. Quase dois dias de estradas esburacadas.

Acompanhando o mapa de Mato Grosso, pude ver que estávamos quase no meio do estado. Subindo pela famosa BR163, sentido norte, daríamos uma parada na cidade de Lucas do Rio Verde para tentar falar com algum produtor, mas como era feriado naquela terça-feira, todas as organizações que poderiam nos ajudar estavam fechadas. A solução foi mesmo parar em um posto na beira da estrada e conversar com quem estava ali. A informação de que os caminhoneiros ‘trancariam’ a estrada no dia seguinte pairava no ar. “Estamos todos de prontidão”, explicou Jonas Ângelo.

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Jonas Ângelo

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Eles esperavam o resultado de uma reunião em Brasília para anunciar a parada ou não. A principal reinvindicação era a criação de uma tabela com preço mínimo de frete. Na região norte do Mato Grosso o movimento de grevistas é forte e a previsão é de que a BR163 seja fechada em vários trechos.

Isso nos deixou um pouco apreensivo. Caso ficássemos bloqueados na estrada atrasaria nossos planos de chegar em Santarém na data marcada. Foi discutida a possibilidade, de pararmos a nossa viagem, voltarmos para São Paulo e retoma-la depois que os ânimos se acalmassem. Tínhamos que correr e sair do trecho que poderia ter bloqueio. Para piorar, como era feriado, nosso caminhão bi-trem articulado, tinha restrição de horários para trafegar. Somos obrigados a parar as 16 horas. Deu para correr e chegar até Sinop. Já estávamos na região chamada de ‘Nortão’ do estado.

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No taxi comentamos que iríamos para Santarém e logo o taxista nos alertou: “Santarém? Cuidado por lá.” Porque? “Tem muita mulher bonita daqueles lados”.

No caminho até Sinop, uma das maiores cidades da região, vimos dois pequenos acidentes e muito, mas muito milho. Sinop é a quarta maior cidade do estado e a maior produtora de grãos do mundo.

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No início dos anos 70 a região do Mato Grosso era ainda pouco explorada e, no norte do estado, começou-se a construir uma espécie de condomínio originada de uma empresa chamada Sinop Terras. Construída em 10 anos a ‘Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná’, SINOP, se tornou polo da agricultura e referencia no ‘nortão’ do estado.

Nenhum lugar poderia ser melhor para fazermos uma parada para fotografar plantações. Mas sempre com os olhos no relógio. A restrição entraria em vigor em menos de uma hora.

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Paramos em Sinop para almoçar e ficamos por lá. O relógio acabava de bater 16 horas e percebi que os carreteiros que ainda ‘navegavam’ pela BR163 aceleravam um pouco mais rápido do que normalmente. Talvez quisessem chegar um pouco mais longe antes de ter que parar no meio do dia.